A Polícia Federal rejeitou nesta quarta-feira (20) o pedido de delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O ex-dono do Banco Master está preso desde 4 de março por fraudes financeiras. Por ora, as negociações seguem com a PGR (Procuradoria-Geral da República).
O motivo da rejeição, segundo fontes que acompanham as negociações, é que a PF entendeu que Vorcaro não entregou novidades em relação ao que os investigadores acumularam até agora.
A defesa do ex-banqueiro, porém, seguirá em negociação com a Procuradoria-Geral da República, que sinalizou em reunião com advogados de Vorcaro na tarde desta quarta-feira (20), em Brasília, o interesse em prosseguir com a colaboração premiada.
Três pontos têm sido essenciais no processos de negociação. Primeiro, os valores a serem ressarcidos por Vorcaro, algo no entorno de R$ 50 bilhões. Outro, a extensão do cumprimento da pena. O ex-banqueiro tem pedido para cumprir pena domiciliar pelo menos até o julgamento. E, por fim, o alcance político da colaboração.
Fontes ligadas às negociações apontam haver até agora potencial material para que ele entregue autoridades do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal), mas temem que as ligações do procurador-geral da República Paulo Gonet e do advogado José de Oliveira Lima com ministros da Corte travem essa possibilidade.
A noticias sem censura havia informado no dia 13 de maio que a prioridade para Vorcaro era fechar um acordo com a PGR e não com a PF.
Na segunda-feira (18), Vorcaro já tinha sido transferido para uma cela comum dentro da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. O movimento foi visto como mais uma prova do descontentamento da corporação com a delação de Vorcaro, que tem deixado nomes e episódios importantes de fora das informações negociadas até então.
No início de maio, a equipe jurídica de Vorcaro entregou uma primeira proposta de colaboração premiada à PF e à PGR. Os investigadores, entretanto, ficaram frustrados com os relatos, que avaliaram como seletivos e que pouco contribuíam para as investigações.
Um dos episódios recentes que levou a PF e a PGR a essa conclusão foi o envolvimento do senador Ciro Nogueira com Vorcaro. De acordo com as investigações da corporação, o presidente do PP (Partido Progressista) recebeu "vantagens indevidas" do antigo dono do Master, algo que até então não tinha sido mencionado pelo ex-banqueiro.
Ciro teria apresentado uma emenda com objetivo de ampliar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. De acordo com investigadores, o instrumento teria sido elaborado com participação de integrantes do Banco Master.
Outro fator que pesou contra Vorcaro foi a omissão do seu envolvimento com Flávio Bolsonaro (PL). Na última semana, o Intercept Brasil publicou mensagens, documentos e um áudio que mostram o senador e pré-candidato à Presidência negociando um repasse do ex-banqueiro no valor de R$ 134 milhões para financiar o filme "Dark Horse".
Pelo menos R$ 61 milhões do montante negociado entre Flávio e Vorcaro já teriam sido transferidos para o parlamentar. Na terça-feira (19), o senador admitiu ter se encontrado com o ex-banqueiro em dezembro de 2025, depois que o dono do Master já estava em prisão domiciliar. Vorcaro, entretanto, não tinha revelado o pagamento nem o encontro à PF ou à PGR.
A decisão de sepultar de vez a delação foi comunicada aos advogados de Vorcaro numa reunião no fim da tarde desta quarta-feira.
Vorcaro apresentou anexos em que omitia informações e tentava, na visão de investigadores, proteger poderosos figurões da República.
No curso da negociação do acordo, vazamentos de detalhes da proposta foram relatados pelos investigadores ao gabinete do ministro André Mendonça, que decidiu romper o canal de diálogo com os advogados de Vorcaro.
Com a negociação encerrada, o futuro do banqueiro deve ser decidido por Mendonça. Vorcaro deve voltar ao presídio, já que estava preso na Polícia Federal sob a justificativa de tentar fechar um acordo de colaboração.
Nesta terça, o Radar mostrou que a defesa ainda tentou um último movimento, buscando melhorar a qualidade da proposta de delação, algo que não foi, por ora, suficiente para evitar a rejeição do acordo.
Mendonça tem dito que a delação é um instrumento da defesa e que cabe ao próprio Vorcaro ofertar uma proposta que seja consistente.
A ruína da delação de Vorcaro alimenta as esperanças de todo um universo de políticos e autoridades de Brasília enredadas na teia de fraudes do Master.
Como o banqueiro não quis colaborar de fato, caberá aos investigadores a missão de avançar com as provas já colhidas sobre os alvos das negociatas que corromperam parte considerável da República.

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