Caso a Corte entenda que houve incompatibilidade com a carreira militar, o ex-presidente e demais militares condenados por tentativa de golpe podem perder benefícios ligados ao posto
Além de Bolsonaro, capitão da reserva, também foram condenados os generais Walter Braga Netto, Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno, bem como o almirante Almir Garnier. Será a primeira vez que o STM deliberará sobre as consequências disciplinares de crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição do Estado democrático de Direito.
Se a punição for confirmada, ocorre o que a legislação militar chama de “morte ficta” — uma morte simbólica para a corporação. Nessa situação, o militar perde a patente, eventuais cargos e benefícios, e deixa de ter direito a prisão especial.
Sem jurisprudência
Composto por 15 ministros — 10 militares e cinco civis —, o STM nunca aplicou esse tipo de sanção a um oficial de alta patente em seus cerca de dois séculos de existência, sendo o tribunal mais antigo do país, criado ainda no período monárquico. Já o MPM é formado por civis aprovados em concurso público.
Especialistas em Justiça Militar apontam que o tribunal costuma ser rigoroso em casos de desvios internos, como fraudes ou furtos de equipamentos, mas tende a adotar postura mais branda quando os crimes envolvem civis. Um episódio citado é a absolvição, no fim do ano passado, de oito militares acusados pela morte do músico Evaldo Rosa, após o carro em que ele estava ser atingido por disparos do Exército no Rio de Janeiro. Na ocasião, os ministros avaliaram não ser possível determinar a origem dos tiros.
Apesar disso, levantamentos indicam que, em processos que tratam da perda de patente, o índice de punição é elevado: nos últimos oito anos, o STM cassou o título militar em 86% dos 93 casos analisados, a maioria relacionada a estelionato e fraudes internas.
As defesas dos militares condenados, contudo, enxergam um cenário distinto daquele enfrentado no STF. Cinco dos ministros que participarão do julgamento foram indicados por Bolsonaro, e alguns tiveram convivência profissional com os oficiais agora sob análise.
O general Lourival Silva, por exemplo, integrou o Alto Comando do Exército ao lado de Paulo Sérgio e Braga Netto. Já os almirantes Leonardo Puntel, Celso Nazareth e Cláudio Viveiros fizeram parte do Almirantado — a cúpula da Marinha — na mesma época em que Garnier ocupava posição de destaque na Força.
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Perda de patente de Bolsonaro no Exército pode “beneficiar” Michelle
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) poderá ser “beneficiada” caso o Superior Tribunal Militar (STM) decida pela perda de patente de capitão reformado do Exército do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A eventual decisão do STM significará a exclusão de Bolsonaro da Força. E pelo entendimento vigente no Exército, a aposentadoria militar do ex-presidente seria transferida como pensão para Michelle.
O entendimento é chamado de “morte ficta” e está baseado na Lei 3.765/1960, que permite a familiares de militares expulsos ou excluídos das Forças Armadas receberem pensão, equiparando a expulsão ao falecimento.
TCU já questionou esse tipo de pensão
Em 2025, o Tribunal de Contas da União (TCU) analisou uma representação sobre a legalidade do direito à pensão por “morte ficta” e entendeu que ela só pode ser concedida em caso de falecimento do militar.
A análise foi feita pelos ministros da Corte de Contas após representação do Ministério Público junto ao TCU, que questionou pagamentos de pensão a familiares de membros das Forças Armadas afastados da carreira
Fontes do Exército sustentam, entretanto, que a decisão do Tribunal de Contas da União não suplanta uma lei 3.765/1960. Por esse motivo, o entendimento é de que as pensões por morte ficta seguem valendo.
Bolsonaro foi para a reserva do Exército como capitão e recebe, mensalmente, aposentadoria de R$ 9,5 mil líquidos (após desconto). Esse dinheiro, pelo entendimento da “morte ficta”, passaria a ser recebido por Michelle.


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