Evento no National Mall encerra semanas de celebrações marcadas por críticas; Filadélfia e Nova York também promovem atividades especiais
Os Estados Unidos comemoram neste sábado (4) o 250º aniversário de sua independência com uma série de eventos espalhados por todo o território nacional. Em Washington, Donald Trump celebra a data com um comício político no National Mall, que deve encerrar as comemorações e tem sido amplamente criticado como divisivo.
A correspondente Mariana Janjácomo, presente no local, descreveu um ambiente de grande movimentação popular, apesar do calor intenso. "São 4 horas da tarde aqui em Washington, sensação térmica de 40 graus Celsius, está muito quente", relatou a jornalista, que observou socorristas atendendo diversas pessoas que passaram mal devido às altas temperaturas.
Great American State Fair e réplica polêmica
No National Mall, onde o gramado em frente ao Capitólio serve de palco para as festividades, foi instalada a chamada Great American State Fair, uma feira com estandes representando cada um dos 50 estados norte-americanos.
Entre as atrações, chama atenção uma réplica do arco que Trump pretende construir em Washington — obra descrita pela correspondente como "uma construção super polêmica" —, além de uma roda gigante. Estandes de comida e bebida completam o cenário, com muitos visitantes usando sombrinhas para se proteger do sol forte.
Celebrações em Filadélfia e Nova York
Na Filadélfia, cidade onde a Declaração de Independência do Reino Unido foi assinada há 250 anos, em 4 de julho de 1776, as comemorações incluíram um inusitado concurso de sósias de Benjamin Franklin. Trinta pessoas se fantasiaram do histórico personagem, considerado um dos pais fundadores dos Estados Unidos, e centenas de pessoas compareceram para julgar a melhor fantasia.
A vencedora foi Kaya Burgess, de 25 anos, que reutilizou uma fantasia de Halloween inspirada no musical Hamilton para participar da competição. O evento foi organizado por um estudante da Universidade Johns Hopkins, que distribuiu panfletos pela cidade para divulgá-lo.
Também na Filadélfia, uma cápsula do tempo contendo itens representativos de todos os 50 estados americanos foi enterrada no Independence Mall. O objetivo é que o conteúdo seja aberto somente quando o país completar 500 anos de existência. A cápsula foi projetada para repelir água e construída para durar dois séculos e meio.
Entre os itens guardados estão uma placa de aço inoxidável de Nova Jersey e anotações manuscritas de 12 moradores de Delaware sobre o significado do primeiro estado para eles. Uma instalação de arte baseada em uma charge de Benjamin Franklin será colocada sobre o local do enterramento. Em Nova York, a Marinha norte-americana realizou um sobrevoo sobre o porto da cidade, com caças deixando rastros de fumaça nas cores vermelho, branco e azul da bandeira americana.
Putin parabeniza Trump pelos 250 anos
Entre os líderes mundiais que parabenizaram os Estados Unidos pela data, destacou-se Vladimir Putin. Em uma carta publicada pelo Kremlin, Putin se dirigiu a Trump como "caro Donald" e afirmou que a assinatura da Declaração de Independência Americana foi "um marco importante na história mundial". O líder russo também mencionou a parceria entre Estados Unidos e Rússia durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, concluindo com a declaração de que está "confiante que uma relação mutuamente benéfica entre os dois países é de interesse de todo o mundo".
EUA 250 ANOS: Cápsula do tempo, polêmica no National Mall e parabéns de Putin
Os Estados Unidos celebram neste sábado (4) o Semiquincentenário — o marco histórico de 250 anos de sua Declaração de Independência. Mas o aniversário do país veio acompanhado de um misto de celebrações grandiosas, calor extremo e debates políticos intensos.
Arrasta para o lado para conferir os principais destaques dessa data histórica! 👉
🏛️ Washington: Discurso de Trump e a "Great American State Fair"
No National Mall, em Washington, o gramado em frente ao Capitólio virou palco de uma enorme feira com estandes representando os 50 estados americanos.
O clima: Calor sufocante com sensação térmica de 40°C, exigindo atendimento médico para vários visitantes.
A polêmica: O encerramento das festividades fica por conta de um comício político de Donald Trump, criticado por opositores como um ato divisivo para a data nacional. No local, uma réplica do arco que Trump planeja construir na capital chamou a atenção do público.
📜 Filadélfia: Cápsula para o ano 2276 e Sósias de Benjamin Franklin
Na cidade onde a independência foi assinada em 1776, o tom foi histórico e bem-humorado:
Cápsula de 250 anos: Uma cápsula do tempo blindada e à prova d'água foi enterrada no Independence Mall com itens de todos os estados (como uma placa de aço de Nova Jersey). Ela só será aberta quando os EUA completarem 500 anos.
Concurso de sósias: Trinta pessoas disputaram o título de melhor sósia de Benjamin Franklin. A vencedora foi Kaya Burgess, de 25 anos, usando uma fantasia adaptada do musical Hamilton.
✈️ Nova York: Show nos Céus
O porto de Nova York foi palco de um sobrevoo massivo da Marinha norte-americana, com caças riscando o céu com fumaça nas cores vermelho, branco e azul.
✉️ Diplomacia: A carta de Vladimir Putin
Entre as mensagens internacionais, o presidente russo Vladimir Putin enviou uma carta ao Kremlin direcionada a Trump como "caro Donald", classificando a independência americana como um marco mundial e relembrando a aliança entre os dois países nas duas Guerras Mundiais.
💬 E você, o que colocaria em uma cápsula do tempo para ser aberta daqui a 250 anos? Deixe nos comentários!
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Aos 250 anos, a América tenta destruir o mundo que ela própria criou
Ao comemorar o 250º aniversário de sua independência, os Estados Unidos encontram-se mais uma vez em estado de rebelião. Mas. desta vez, a revolução é contra o mundo que a própria América criou.
Em vez de George III e seu Parlamento na distante Londres, os inimigos dessa revolução destrutiva são as instituições globais, as alianças e o sistema de valores que os Estados Unidos construíram para proteger a liberdade após a derrota do fascismo em 1945.
Muitos republicanos, assim como alguns da esquerda, acreditam que essas estruturas impõem fardos que os americanos não deveriam estar mais dispostos a tolerar, de uma maneira similar à que levou os colonos do Novo Mundo a se rebelar contra a Lei do Selo de 1765.
Um ano após o início de seu segundo mandato, Donald Trump abandonou 66 organismos internacionais, incluindo 31 agências da ONU, como se fossem caixas de chá sobrecarregadas de impostos.
Seis meses depois, a máquina demolidora de Trump ainda está em plena ação. No mês passado, o presidente propôs uma nova rodada de tarifas abrangentes como parte de uma campanha contra o comércio multilateral. Se ele atacar Cuba, será a oitava vez que ele usa força militar desde janeiro de 2025. Ele não buscará a aprovação do Congresso nem do Conselho de Segurança da ONU. Ao contrário dos presidentes anteriores, ele não invocará qualquer justificativa com base no direito internacional.
Preste atenção ao discurso sobre a secessão. Em sua audiência de confirmação antes de se tornar secretário de Estado, Marco Rubio declarou que “a ordem global do pós-guerra não é apenas obsoleta; agora é uma arma sendo usada contra nós”. Steve Bannon comemora que a ordem baseada em regras tenha sido jogada na “lixeira da história”. Falando em nome dos aliados que se sentem atacados e traídos, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, lamenta que “o Ocidente como o conhecemos não exista mais”.
Você pode pensar que o bilionário filho de um incorporador imobiliário seria um revolucionário improvável. Trump não tem interesse em ideias. Ele não tem ideais nem qualquer propósito superior. A guerra no Irã demonstra sua falta de uma grande estratégia.
Mas esse vácuo é precisamente o que o capacita a derrubar a velha ordem. Sendo um oportunista com um ego insaciável, ele não se importa nem um pouco com as instituições que lhe foram confiadas. Em vez disso, ele quer erguer um monumento à sua versão da grandeza americana e batizá-lo com seu próprio nome.
E o momento é propício. Todo esquema de organização geopolítica acaba enfrentando uma mudança no equilíbrio de poder ou uma crise de legitimidade. Essa revolução atinge um sistema assolado por ambos. A China, acreditam os americanos, nunca compartilhará os valores universais que os Estados Unidos costumavam defender. Então, de que adianta um sistema centrado neles?
E se os Estados Unidos, em vez de investir em um mundo pacífico, extraem o que podem de um mundo violento, por que os outros não fariam o mesmo?
Ainda é cedo para dizer com certeza aonde isso levará; as revoluções seguem lógicas próprias. Mas algo precioso está destruído. Em seu discurso de posse, John F. Kennedy declarou: “Que todas as nações saibam, quer nos desejem o bem ou o mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer fardo, enfrentaremos qualquer adversidade, apoiaremos qualquer amigo, nos oporemos a qualquer inimigo, a fim de garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade.” Essa visão está morta.
Para avaliar a revolução da “bola de demolição”, este ensaio a analisa em três contextos: o da revolta americana de 1776 e o mundo que ela criou; o das revoluções europeias de 1848 e a maneira como elas estagnaram; e o da Revolução Francesa de 1789 e sua descida ao caos
A Revolução Americana e uma nova ideia de sociedade
A Revolução Americana foi tanto uma guerra de secessão da Grã-Bretanha quanto a gênese de um novo tipo de sociedade. Nas palavras de David Ramsay, que presidiu o Congresso Continental em 1785-86, ela se baseava em um novo contrato social que transformava súditos em cidadãos: em vez de serem obrigados a se submeter à vontade da Coroa, os indivíduos possuem em si mesmos direitos universais pelos quais se comprometem livremente a se tornar cidadãos de uma república soberana.
Isso levantou uma questão. As pessoas de outros países obviamente não eram cidadãos americanos. Mas, na concepção idealizada dos fundadores, elas eram seres humanos dotados exatamente dos mesmos direitos naturais que os americanos. Os Estados Unidos deveriam ser para elas o modelo de uma forma nova e melhor de governar. Mas como deveriam agir quando os interesses amplos da liberdade universal e os interesses restritos da república divergissem? À medida que seu poder crescia, a questão gradualmente se tornou relevante.
A crença de Woodrow Wilson de que a missão dos Estados Unidos era difundir o plano de Deus para a humanidade fez dele um expoente da abordagem universalista. Para que a democracia estivesse a salvo do flagelo do militarismo e do cinismo da realpolitik, o presidente afirmou em 1917: “A paz deve ser alicerçada nos fundamentos comprovados da liberdade política”. Em 1945, os Estados Unidos cumpriram essa promessa, levando a liberdade aos países derrotados do Eixo e buscando construir uma defesa contra o comunismo sobre esse alicerce pacífico e a prosperidade que ele traria.
Os revolucionários de Trump seguiram o caminho oposto. Eis o que disse Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, ao jornalista Jake Tapper, na CNN, no início deste ano: “Vivemos em um mundo, no mundo real, Jake, que é governado pela força, que é governado pela violência, que é governado pelo poder: essas são as leis de ferro do mundo desde o início dos tempos.” Vindo do principal ideólogo de Trump, isso soa como discurso monarquista.
Ou considere como J.D. Vance enterrou a ideia da América sob a retórica do “sangue e solo” ao aceitar a indicação à vice-presidência. Ele falou na convenção republicana sobre as cinco gerações de seus antepassados que repousam na terra do Kentucky: “Isso não é apenas uma ideia, meus amigos”, proclamou ele. “Isso não é apenas um conjunto de princípios. Embora as ideias e os princípios sejam excelentes, aquilo é uma pátria. Aquela é a nossa pátria.”
O universalismo cristão de Wilson deu lugar ao nacionalismo cristão. Os demolidores acreditam que a crença antiquada de seus antecessores no livre comércio e no interesse próprio esclarecido minou o espírito guerreiro de que os Estados Unidos precisam para prosperar em um mundo cruel e violento. Eles querem menos Adam Smith e mais Carl Schmitt.
Odd Arne Westad, um acadêmico norueguês, duvida que o pêndulo esteja simplesmente oscilando entre valores e realpolitik, como aconteceu após Wilson no início do século 20 e após Barack Obama no início do século 21. Ele acredita que, pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos estão pensando como uma nação mesquinha e egoísta. “O que vocês estão vendo é uma derrubada da abordagem universalista mais básica da política externa americana”, diz ele. “E não acho que seja apenas um fenômeno passageiro.”
Michael Beckley, da Universidade de Tufts, espera que os Estados Unidos se tornem “mais unilateralistas, agressivos e transacionais”. Especialistas imaginam que o país exigirá mais e oferecerá menos. As bases americanas na Alemanha, por exemplo, se tornarão bases alemãs financiadas pela Alemanha — embora os Estados Unidos ainda insistam no direito de usá-las.
Em troca de garantias de ajuda em tempos de guerra, os Estados Unidos exigirão concessões econômicas durante a paz. Ela imporá um comércio “equilibrado”, fiscalizado por meio de tarifas e cotas destinadas a favorecer sua própria economia. Exigirá que seus parceiros-vassalos rompam seus laços com a China, bloqueiem investimentos estrangeiros e proíbam seus cidadãos de possuir ativos chineses.
O poder que vem da IA
A razão simples pela qual os revolucionários de Trump acreditam que serão capazes de impor tudo isso é que os Estados Unidos continuam sendo muito poderosos. E, graças à IA, estão prestes a se tornar ainda mais poderosos. Chris McGuire, que trabalhou com políticas de tecnologia no Conselho de Segurança Nacional (NSC) sob o comando de Joe Biden, afirma que mesmo aqueles imersos na tecnologia muitas vezes não conseguem compreender até que ponto ela está “acontecendo tão rápido e tem consequências tão significativas para o poder global dos EUA”.
Para ter sucesso na IA, é necessária a mobilização de capital, infraestrutura, computação, modelos e aplicações. Os Estados Unidos são impressionantemente dotados de todos esses cinco elementos. E muitas vezes podem exercer grande influência sobre a implantação desses fatores no exterior. Decisões recentes sobre novos modelos da Anthropic e da OpenAI mostram como o direito de usar modelos de ponta pode, um dia, depender de um sinal de aprovação da Sala Oval.
Além de controlar os modelos, os Estados Unidos têm talvez 15 vezes mais poder de computação que a Europa. “Acho que os europeus estão completamente perdidos, para ser honesto”, diz McGuire. Eles serão, portanto, obrigados a permanecer próximos dos Estados Unidos. “Sim, os EUA são frustrantes e irritantes”, diz ele; “às vezes, até mesmo um mau ator. Mas, no grande esquema das coisas, são um ator muito menos ruim do que a China ou a Rússia… Nada disso vai se basear em legitimidade. Vai se basear em poder.”
Alguns perguntarão o que há de novo nisso. Os céticos sempre viram a retórica americana sobre a liberdade como uma cortina de fumaça destinada a camuflar a imposição do poder bruto — da mesma forma que seu discurso sobre direitos universais excluía os escravos, seu novo contrato social não oferecia cidadania aos indígenas americanos e suas igualdades excluíam as mulheres.
Mas isso não é o ponto principal. Todos os países são egoístas. O que é surpreendente nos Estados Unidos é até que ponto o país perseguiu uma agenda universalista paralelamente — e, às vezes, até mesmo em oposição — a agendas mais restritas. Esse interesse mais amplo levou a erros de ambição excessiva.
Talvez o pior tenha sido acreditar que a liberdade pudesse ser levada ao Iraque — e que o Oriente Médio, assim, fosse estabilizado — pela força das armas, mesmo diante da opinião pública mundial. Mas a razão pela qual os aliados se permitiram tornar-se excessivamente dependentes dos Estados Unidos foi que acreditavam, de verdade e com razão, que os Estados Unidos tinham interesse no bem comum e que compreendiam esse interesse.
O grupo dos demolidores de Trump tem a visão oposta. Eles estão oferecendo ao mundo menos direitos, compensados por mais poder. Isso, imaginam eles, tornará os Estados Unidos mais dominantes e prósperos do que nunca. Também os tornará menos populares entre as nações que costumavam admirá-los.
Quanto mais os futuros presidentes exigirem dinheiro e favores por meio de intimidação, mais as relações com o resto do mundo se tornarão tensas e hostis. Kori Schake, pesquisadora do American Enterprise Institute, alerta que “uma América predatória [vai] ativar anticorpos contra o poder americano”.
As próximas eleições nos EUA vão testar as instituições americanas
Quando as revoluções dão errado
Em 21 de fevereiro de 1848, o governo francês proibiu os reformistas de realizar um banquete em homenagem ao aniversário de George Washington. Manifestantes tomaram as ruelas e avenidas de Paris, exigindo mudanças. Três dias depois, o rei Luís Filipe abdicou; ele fugiu para a Inglaterra como um “Sr. Smith”.
Foi um ano de colheitas ruins e estagnação econômica, no qual as revoluções liberais se espalharam rapidamente pela Europa continental. Suas chamas foram alimentadas pelo nacionalismo e pelas primeiras faíscas do socialismo. Reis, príncipes e duques sucumbiram às chamas. Na Áustria e na Hungria, os servos conquistaram sua liberdade. A imprensa foi poupada da censura.
E então as revoluções perderam força. O nacionalismo dividiu os revolucionários; os socialistas se separaram dos liberais; os governos recém-formados cambaleavam sob o peso das expectativas populares. Os reis, príncipes e duques recuperaram o poder. Luís Napoleão Bonaparte, eleito presidente da França em dezembro de 1848, proclamou-se imperador quatro anos depois.
A revolução de Trump também pode não ir até o fim. A maioria dos americanos ainda se apega à ideia de que seu país é a nação indispensável, mesmo que, após US$ 8 trilhões em “guerras eternas”, muitos deles não tenham mais interesse em atuar como força policial mundial.
Dois terços dos americanos afirmam ao Pew Research Center que os Estados Unidos deveriam levar em conta os interesses de outros países em decisões importantes de política externa. Por muito tempo, eles também achavam que o país fazia isso. No entanto, em pesquisa realizada no final de março, um mês após o início da guerra contra o Irã, 53% deles afirmaram que, na prática, a política externa agora ignora os interesses de outros países — a primeira vez que a maioria teve essa opinião desde que as pesquisas sobre o assunto começaram, em 2002. No mesmo questionário, 54% disseram que a guerra na Ucrânia é importante para eles pessoalmente, contra 34% que afirmaram que não é.
Nesse ponto, como em tantos outros, o país se divide segundo linhas partidárias. Os democratas são muito mais propensos a achar que os Estados Unidos ignoram os interesses dos outros do que os republicanos, e estão mais preocupados com isso. Se a facção MAGA de Trump perder o controle da Casa Branca em 2028, a agressão implacável contra os aliados diminuirá. Um novo governo estará mais propenso a ouvir os aliados dos Estados Unidos e a falar sobre valores, e menos propenso a exercer pressão de forma autoritária.
Isso leva muitos estudiosos a duvidar da durabilidade do nacionalismo estreito e nativista de Miller e Vance. Para Beckley, os Estados Unidos são simplesmente diversos demais: “a ideia de um nacionalismo de ‘sangue e solo’ e de voltar a uma época anterior a 1776: acho que simplesmente não vai ganhar muito fôlego político”. Francis Fukuyama, da Universidade de Stanford, concorda: “Simplesmente não estou convencido de que os americanos em geral tenham desistido desse projeto liberal que tantos presidentes americanos apoiaram.”
Uma maior relutância em intimidar pode vir acompanhada de menos margem para fazê-lo. Brad Smith, vice-presidente da Microsoft, destaca que os ganhos decorrentes de tecnologias de uso geral, como a IA, costumam favorecer aqueles que são mais hábeis em difundí-las pela economia, e não aqueles que as inventam. Atualmente, os Estados Unidos, número um no mundo em invenções de IA, ocupam apenas a 21ª posição em difusão. A liderança pode escapar. “Não é como se essa corrida acabasse”, diz Smith. “As pessoas agem como se você ganhasse a corrida, recebesse a medalha de ouro e isso valesse alguma coisa.”
Smith também duvida que o governo opte por transformar a IA em arma. Sua empresa realiza 45% de seus negócios fora dos Estados Unidos. “ Não podemos ter sucesso sem esses clientes, e esses clientes, por sua vez, estão todos interconectados globalmente”, diz ele. Para que os Estados Unidos prosperem, as empresas americanas precisam prosperar. Para que as empresas americanas prosperem, elas precisam prosperar na Europa, na Ásia e na América Latina.
Ação e Reação
Mas se a demolição de Trump não conseguir ir até o fim, isso não significa que os escombros acumulados serão reconstruídos. A revolução dos Estados Unidos desencadeou reações que nenhuma mudança em Washington pode reverter facilmente.
As atitudes europeias se endureceram. Desde as ameaças de Trump, em janeiro, de tomar a Groenlândia da Dinamarca, o movimento MAGA tornou-se tão impopular que até mesmo nacionalistas populistas sentem a necessidade de se posicionar. “Trump vem perdendo progressivamente suas cartas”, diz Nathalie Tocci, uma acadêmica italiana. A UE acelerou acordos comerciais com a Austrália, Índia, Indonésia, Mercosul e México. À medida que a influência de Trump sobre a Ucrânia foi se esvaindo, a da Europa cresceu.
Os gastos com defesa da Alemanha dobraram desde 2023. A meta é atingir 3,5% do PIB até 2029, o triplo do nível mais baixo registrado em 2015. A Europa precisa construir força militar e sistemas capazes de utilizá-la de forma eficaz e mobilizá-la rapidamente. Se Vladimir Putin mobilizar tropas russas, diz Camille Grand, ex-funcionário francês que serviu na Otan, os europeus “têm de prover a cavalaria”
As democracias asiáticas também estão tentando construir alianças regionais mais sólidas. “Precisamos preencher o vácuo que os EUA vêm criando em nossa vizinhança, especialmente no Sudeste Asiático”, afirma Ishii Masafumi, ex-diplomata japonês. Ele defende um programa elaborado de aproximação com os países da região. O segredo será unir forças com os países grandes, populosos e em rápido crescimento. Em termos de PIB, a Indonésia será maior que o Japão em apenas 20 anos.
O apelo mais veemente para preencher esse vácuo foi feito por Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro passado. Ele disse a outras “potências médias” que não havia alternativa: “Se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio.” E, de fato, existe uma teoria nas relações internacionais que afirma que, embora seja necessária uma potência hegemônica para construir uma ordem, as potências menores podem mantê-la.
O argumento é que a ordem gera benefícios econômicos reais ao coordenar a provisão de bens públicos: estabelecendo padrões em áreas como o controle de tráfego aéreo; fazendo cumprir acordos sobre questões como a liberdade de navegação; e promovendo a confiança de que o mundo funcionará sem percalços. Isso dá a outros países um bom motivo para intervir quando os Estados Unidos abandonam o patrocínio de instituições que eles valorizam, como fizeram para salvar um acordo comercial do Pacífico agora conhecido como CPTPP.
Infelizmente, esses arranjos sem hegemonia tendem a ser instáveis. “Em algum momento, alguém vai decidir que quer sair do sistema, ou que quer quebrar as regras, ou que as regras não se aplicam a ele”, diz o Dr. Fukuyama. Sem alguém para forçar os renegados a voltarem, o sistema entra em colapso. Especialmente se o antigo guardião das regras estiver de fora, elogiando a vida de renegado.
Nem todas as potências médias estão necessariamente entusiasmadas com a ideia. A equipe de Carney pode esperar pouca ajuda dentro de seu próprio hemisfério. A América Latina está sendo “trumpificada” um país de cada vez. A direita venceu todas as sete eleições presidenciais na região desde o início de 2025. Resistir à agenda dos Estados Unidos não está nos planos.
Do outro lado do Atlântico, muitos na União Europeia têm simpatias carneyistas. Mas suas próprias instituições deixam dolorosamente claro o quão difícil é para um conjunto de potências se coordenar. Seus 27 membros desenvolveram procedimentos complexos na tentativa de tornar eficiente a governança coletiva. Mesmo após décadas de construção institucional, eles têm dificuldade para agir com rapidez. O Dr. Tocci argumenta que métodos criados para tempos de paz são inadequados para épocas de conflito.
Os países asiáticos, por sua vez, tendem a ver a ideia das potências médias como uma ilusão ocidental perigosa. Eles não acreditam que possam fazer frente à China sem a ajuda americana. “Não há possibilidade de conter a China sem os Estados Unidos”, afirma John Lee, ex-assessor do ministro das Relações Exteriores da Austrália. “Em última análise, os aliados asiáticos farão e darão o que for necessário para preservar esse equilíbrio americano.”
Dito isso, se os Estados Unidos buscarem algum tipo de reforma, talvez consigam trabalhar com as potências menores para manter o sistema coeso. Algumas dessas potências compreendem que uma primazia americana modificada lhes daria um peso e uma capacidade de ação que outros arranjos não proporcionam.
Portanto, elas podem reduzir a escala do que esperam dos Estados Unidos, tornando mais plausível uma nova política externa menos partidária no país. Enquanto isso, suas exigências por confiabilidade podem ajudar aqueles que estão elaborando essa política americana a promover seus objetivos internos. “Os EUA terão que conquistar de volta seu espaço nas instituições e práticas que abandonaram”, diz a Dra. Schake. “Teremos que provar que somos confiáveis, e os outros nos dirão quando estivermos falhando.”
A aurora da nova ordem
Mas voltemos novamente a 1848. As revoluções fracassaram; mas a Europa nunca restaurou a ordem conservadora, baseada no direito divino dos monarcas, que Klemens von Metternich havia estabelecido no Congresso de Viena. Em vez disso, Otto von Bismarck buscou estabilidade por meio da manipulação do poder. Da mesma forma, se Trump for impedido de concluir seu trabalho destrutivo, um novo equilíbrio poderia manter os Estados Unidos ainda dominantes. Mas os laços seriam mais superficiais; se a desconfiança limitasse o compromisso, eles seriam menos úteis.
Quando Luís XVI impediu a Assembleia Nacional de entrar em suas salas de reunião em 1789, um médico parisiense interessado na reforma da pena de morte propôs que simplesmente transferissem suas deliberações para uma quadra de tênis próxima. Lá, juraram que não interromperiam essas deliberações até que a tarefa de dotar a França de uma nova constituição estivesse concluída. Tudo isso era muito razoável.
Levou apenas quatro anos para que a revolução degenerasse no Terror, durante o qual o Comitê de Segurança Pública decapitou quase 17 mil pessoas usando o dispositivo proposto inicialmente por aquele médico tão razoável, Joseph-Ignace Guillotin.
Os instigadores da revolução de Trump talvez não desejem que ela degenere em anarquia e violência, da mesma forma que Guillotin não pretendia que seu compromisso com uma execução mais humana levasse ao assassinato em massa. Mas Trump colocou em movimento uma força avassaladora que nem ele nem qualquer outro líder mundial será capaz de controlar. Seu tratamento desdenhoso aos aliados e aos princípios — e sua tolerância para com ditadores e violações das regras — lubrificou seus eixos. Um fim infeliz, anárquico e violento é mais do que possível.
Muitos países nutrem ressentimento em relação à ordem que agora está passando, alguns com bons motivos. A China e a Rússia, assim como os demolidores trumpistas, estão trabalhando ativamente contra ela. A Rússia tornou-se um pária que invade, interfere, sabota, assassina e, em seguida, protege-se escondendo-se atrás das regras que acaba de pisotear. Sua hipocrisia é profundamente corrosiva. A China age de forma mais calculada, pois deseja minar o controle dos Estados Unidos sem causar tanto caos a ponto de ser obrigada a ajudar a resolver a situação. Suas ameaças de suspender as exportações de terras raras — mercado que domina — estão colocando o sistema comercial mundial sob uma pressão intolerável. Ela está criando um sistema paralelo de governança, composto por bancos de desenvolvimento e fóruns políticos, que não pode substituir a velha ordem, mas pode contribuir para sua fragmentação.
O risco do caos
O caos se espalhará à medida que as forças que antes uniam o mundo passam, cada vez mais, a dividi-lo. Eswar Prasad, da Universidade de Cornell, costumava acreditar que os benefícios gerais em termos de economia e segurança gerados pela globalização compensariam a relutância dos líderes em fazer concessões. Agora, ele teme que a globalização tenha se tornado manchada. “Não só não estamos obtendo esses benefícios”, diz ele, “como também essa força estabilizadora em contraponto ao jogo de soma zero da política desapareceu”. O livro recente no qual ele expõe seus argumentos chama-se “The Doom Loop”.
O Dr. Prasad observa que líderes populistas culpam o comércio pela destruição de empregos, enquanto a tecnologia geralmente desempenha um papel muito maior. Tecnologias como a IA e as criptomoedas estão fortalecendo pequenos Estados rebeldes e agitadores internos. A dependência do dólar estabiliza as economias no curto prazo, mas as expõe a sanções do mundo rico e à fuga punitiva de capitais em caso de crise. Ele teme que, caso as economias precisem de liquidez de emergência em dólares, Trump possa tentar explorar sua influência para obter concessões.
À medida que as normas entram em colapso, os países produzirão inovações sob pressão, aproveitando oportunidades que antes seriam consideradas arriscadas demais. A iniciativa da China em relação às terras raras é um desses exemplos. A tomada de controle do Estreito de Ormuz pelo Irã e seus ataques à infraestrutura energética de seus vizinhos são outro. Embora negar a passagem segura a navios seja ilegal, a República Islâmica não abrirá mão de seu novo trunfo de boa vontade. No futuro previsível, a ameaça de um novo bloqueio pairará sobre o estreito como um drone à espreita.
Assim como Trump monetizou suas alianças, o Irã buscará financiar sua reconstrução por meio de taxas de trânsito. Outros pontos de estrangulamento, geográficos ou metafóricos, também estarão sujeitos a exploração. Quem controlará o Canal do Panamá, a Rota Marítima do Norte, Bab al-Mandab ou o Estreito de Malaca? Será que a Holanda exercerá influência graças à sua liderança em litografia, ou Taiwan, por meio de suas fábricas de wafers, as melhores do mundo? E quanto aos minerais da República Democrática do Congo — ou do Brasil? Se o mundo é um jogo de soma zero, não há nada a ganhar em ser um bom cidadão internacional, apenas em tirar o que for possível.
Suspeitando que os Estados Unidos não vão mais fazer barulho e que as ameaças da ONU perderam qualquer força residual, os líderes vão tirar a poeira de planos para acertar contas com seus vizinhos. A China tem disputado reivindicações territoriais sobre recifes, bancos de areia e afloramentos rochosos contra praticamente todos os países marítimos da Ásia. Camboja e Tailândia trocam tiros repetidamente nas Montanhas Dangrek.
A Turquia ocupa partes do norte da Síria. Israel criou zonas-tampão ao redor de todas as suas fronteiras. Muitas das fronteiras traçadas na África, definidas em capitais distantes por administradores imperiais, desafiam a lógica local. Líderes que se contenham por respeito às regras não receberão nenhum agradecimento. Em vez disso, podem perder sua chance.
A era dos predadores
Um sistema internacional em colapso recompensará os predadores, assim como um sistema bem-sucedido costumava suprimi-los. Ao ajudar Putin a combater a Ucrânia, Kim Jong Un, o presidente pária da Coreia do Norte, recuperou influência junto à Rússia e à China.
Em todos os lugares, uma corrida paranoica pela segurança desencadeará corridas armamentistas. Quando o Irã atacou seus vizinhos no Golfo, os Estados Unidos foram incapazes de protegê-los totalmente. Agora, eles terão que encontrar maneiras de se defender, de dissuadir o Irã ou (mais provavelmente) de fazer as duas coisas. E assim, o Irã, sentindo-se ameaçado, investirá em ainda mais armas — e o ciclo se repetirá.
Esses dilemas de segurança já estão afetando a política nuclear. A era do controle de armas nucleares chegou ao fim; o Tratado New START entre os Estados Unidos e a Rússia expirou em fevereiro, deixando ambas as partes livres para transferir armas dos depósitos para o serviço ativo. A Rússia tem proferido ameaças nucleares como parte de sua guerra contra a Ucrânia, o que representa uma perigosa confusão entre guerra nuclear e não nuclear. A China está expandindo maciçamente seu arsenal e impedindo as negociações sobre armas.
As perspectivas de proliferação parecem igualmente preocupantes. Em 1963, o presidente Kennedy disse que era “assombrado” pelo temor de que, na década de 1970, 15, 20 ou 25 países pudessem obter armas nucleares.
Mais de 60 anos depois, o número de potências nucleares cresceu apenas de quatro para nove; e, se cinco se juntaram ao grupo de forma permanente, outras quatro abriram mão de suas armas. Parte disso se deveu a esforços direcionados de combate à proliferação; parte se deveu à crença de que a paz poderia ser mantida sem elas, às vezes sob um guarda-chuva nuclear explícito, outras vezes não. Com sua segurança garantida pela ordem internacional baseada em regras, que necessidade tinha a Ucrânia de 1994 das armas nucleares que herdou da União Soviética?
A guerra no Irã colocou em dúvida a capacidade até mesmo de um Estados Unidos sem restrições de impedir a proliferação pela força. A revolução da “bola de demolição” está fazendo com que países que antes não tinham ambições nucleares passem a se interessar pela paz por meio dessa força hedionda. Se Trump despreza os aliados dos Estados Unidos — mesmo os mais próximos —, por que ele usaria armas nucleares em nome de qualquer um deles?
Se Trump despreza os aliados dos Estados Unidos, por que ele usaria armas nucleares em nome de qualquer um deles?
Adquirir armas nucleares exige tempo e dinheiro. Paul van Hooft, chefe da iniciativa de dissuasão do RAND Europe, um centro de estudos, afirma que os países poderão em breve economizar ambos com alternativas convencionais. No início da década de 2030, aqueles com o know-how e a disposição para investir poderão dispor de um grande número de armas convencionais capazes de realizar ataques de precisão no interior do território inimigo. E, na Europa, as duas forças de dissuasão nuclear existentes poderão ser compartilhadas de forma mais explícita.
Os países que, mesmo assim, buscam uma bomba própria sabem que não há momento mais perigoso do que aquele entre a detecção de seus planos e a implantação de seu meio de dissuasão. Minimizar essa janela de oportunidade significa ter um projeto detalhado elaborado com antecedência e estoques de material nuclear civil prontos para rápida reaproveitamento. Brad Roberts, ex-funcionário do Pentágono, destaca que as usinas nucleares do Leste Asiático possuem um número surpreendente de supercomputadores. “Elas têm funções legítimas, tenho certeza”, insiste ele. “Mas é preciso questionar quais outras funções elas tiveram.”
O Dr. van Hooft alerta que, se vários países correrem para desenvolver uma bomba, a situação ficará complicada — ainda mais se planejarem usar os sistemas de ataque de longo alcance já existentes para lançá-las. “Acho que a probabilidade de uma guerra aumenta”, diz ele, “e a probabilidade de uma dessas guerras envolver um Estado com armas nucleares, envolvendo o uso de uma ou duas armas nucleares, tudo isso aumenta.” Ele ressalta que isso não significa uma conflagração capaz de destruir o planeta. Mas mesmo que as consequências das primeiras armas nucleares disparadas em combate desde 1945 fossem pequenas em termos absolutos, seriam tão simbolicamente impactantes quanto a camada de argila com irídio que marca o fim da era dos dinossauros.
“É um quadro bastante sombrio”, diz Joel Rosenthal, presidente do Carnegie Council for Ethics in International Affairs, outro centro de estudos. “Não vejo realmente uma saída para isso. Vejo apenas mitigação, não prevenção.”
Os próximos líderes dos Estados Unidos descobrirão que garantir uma nova ordem é muito mais difícil do que demolir a antiga. Sob a mão descuidada de Trump, a revolução da “bola de demolição” teve início sem muita atenção ao que viria a seguir — um pouco como a demolição da Ala Leste da Casa Branca. Ele não será, no fim das contas, o homem que determinará o que, se é que algo, deve tomar o seu lugar.
Apesar das evidências claras de que isso está acontecendo, ainda é, de certa forma, difícil acreditar que os Estados Unidos tenham realmente iniciado a demolição. Independentemente do que Trump, seus assessores e seus defensores digam, o sistema que seu país criou após a Segunda Guerra Mundial trouxe-lhe enormes benefícios durante a maior parte de um século — mecanismos permanentes para exercer influência, estabilidade em seus próprios termos, os ganhos econômicos decorrentes de ser a âncora do sistema financeiro, mercados abertos e as condições para que suas empresas prosperassem neles. E a ausência de guerras entre grandes potências.
Para os americanos, derrubar tudo isso, portanto, pode parecer um sintoma mórbido de declínio — a face externa da decadência de seus valores e da política interna, uma hegemonia predatória gerada por uma democracia em declínio. A visão alternativa, porém, é que surgirá uma nova ordem na qual os Estados Unidos continuarão a liderar, e que essa revolução passará a simbolizar o extraordinário dinamismo e o poder de renovação do país.
Seria uma reviravolta notável. Novas ordens geralmente surgem de conquistas e conflitos. Foram necessários os horrores da Guerra dos Trinta Anos, um dos conflitos mais devastadores da história da Europa, para que, em 1648, se chegasse à Paz de Westfália — e, com ela, ao conceito de Estado soberano, a noção fundamental sobre a qual se baseia a geopolítica.
Não teria havido o Concerto Europeu para Metternich conduzir sem as guerras napoleônicas, nem nações para se unirem em 1945 sem a derrota de Hitler. Os líderes dos Estados Unidos estão tentando impor uma nova ordem — ainda que de inspiração westfaliana —, mesmo enquanto sua própria política é abalada pelo populismo, uma nova tecnologia disruptiva promete virar de cabeça para baixo todos os aspectos da vida moderna e uma China em ascensão está ansiosa para exercer controle sobre o Leste Asiático e influência sobre tudo.
O instinto diz que, para que tal empreendimento seja bem-sucedido, ele deve ser conduzido lentamente. Os Estados Unidos e a China, de cuja relação depende tanto mais, precisam avançar com cautela rumo a uma coexistência que ambos possam tolerar, baseada em um entendimento mútuo de suas forças relativas.
Nesse sentido, há algum consolo a ser encontrado nas palavras de Zhao Tong, que trabalha na Fundação Carnegie para a Paz Internacional. Ele acredita que os líderes da China não estão com pressa. Eles têm estado tão preocupados em enfraquecer a liderança dos Estados Unidos que dedicaram menos atenção à forma que a ordem subsequente assumiria. Eles desejam continuar acumulando poder, e isso levará tempo — o que pode permitir que os dois lados, gradualmente, por meio de sondagens e diplomacia, cheguem a um acordo.
Mas, para que um equilíbrio de forças traga uma nova ordem, ele deve fazer mais do que satisfazer os dois principais atores. Deve também trazer estabilidade aos demais ou ser flexível o suficiente para abranger mudanças. Deve oferecer algo semelhante ao que a Grã-Bretanha trouxe à Europa do século 19 por meio de políticas que buscavam preservar o status quo, garantindo que nenhum país pudesse dominar. Guerras ainda aconteciam, mas seu objetivo, como disse Henry Kissinger, era o equilíbrio, não a conquista total.
Infelizmente, como aponta o Dr. Fukuyama, usar pequenas guerras para recalibrar o equilíbrio de poder em um mundo repleto de armas nucleares levará à catástrofe. Como tal sistema poderia funcionar é um mistério. “Estou com medo”, admite ele. O Dr. Westad vê uma tentação crescente para que líderes ambiciosos, implacáveis ou imprudentes ajam rapidamente a fim de conseguir o que querem enquanto ainda podem. “É por isso mesmo que estou preocupado”, diz ele.
Assim como as de 1776, 1789 e 1848, a revolução demolidora de Trump já ganhou vida própria. O medo constante e avassalador será de que as forças que se libertaram não parem até que a destruição esteja completa.
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