Levantamento do Instituto Democracia em Xeque aponta que páginas e perfis à esquerda dominaram narrativa falsa contra Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência
A controvérsia sobre a padroeira só não teve mais repercussão nas primeiras 24 horas desde que ganhou as redes, de acordo com o IDX, do que as publicações sobre o embate entre os ministro André Mendonça e Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF), em 1º. de setembro, após o furo do Estadão sobre o caso Master, e sobre os áudios trocados por Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro tratando do financiamento do filme “Dark Horse”, em 13 de maio.
A desinformação nasceu com o resgate, por governistas, de um projeto apresentado em 2007 e arquivado em 2008. De acordo com o monitoramento de redes sociais realizado pela campanha de Flávio Bolsonaro, a primeira publicação foi feita pelo influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, autor do perfil governista “Dilma Bolada”.
Segundo o levantamento da equipe do candidato do PL, apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a publicação de Jeferson, feita às 21h50 de quarta-feira, 23, levou a uma onda de boatos e distorções a partir dos minutos seguintes.
“Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil. Tudo com Jesus. Nada sem Maria. E Bolsonaro na cadeia!”, diz a publicação no perfil de Jeferson. A reportagem não conseguiu contato com o autor.
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A informação falsa escalou por volta das 20h13 do dia seguinte, quinta-feira, quando o programa Em Pauta, da GloboNews, abordou que a Igreja Católica estaria preparando uma reação a uma suposta mobilização de evangélicos em torno do projeto e que isso poderia “surtir efeito, entre os católicos, a favor de Lula”. Horas depois, a própria emissora veiculou uma correção. “Nós pedimos desculpas pelo erro”, afirmava a nota exibida pelo canal.
Mesmo quando já era público que as informações que circulavam sobre ataques de Flávio Bolsonaro a Nossa Senhora Aparecida eram falsos, o coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), George Marques da Silva e Silva, republicou mensagem que estimulava o compartilhamento das mensagens.
“Parem de divulgar retratação. Deixem o assunto rolar. Eles fizeram isso em outras eleições e quase nos ferram. Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada, precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”, dizia a publicação, que depois foi apagada. Flávio pediu a prisão preventiva do integrante do governo Lula pelo caso.
As publicações voltaram a ter um pico neste sábado por causa da decisão do ministro André Mendonça, do STF, que determinou a remoção de publicações que tratavam como verdadeira a versão de que Flávio Bolsonaro tiraria o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A nova onda de postagens dos perfis à esquerda usou a decisão, segundo o IDX, para deslocar o debate religioso para o de censura e prejuízo à liberdade de expressão.
No recorte do IDX sobre 345 posts de perfis políticos monitorados, os grupos considerados à esquerda do espectro político produziram 66% das publicações, já os apontados à direita, 33%, e a imprensa 1%. Considerando as interações em todas as publicações, a esquerda fez 70% delas. A direita, 30%.
Nesses perfis políticos, o IDX observou que a mobilização contra Flávio foi o “principal eixo da conversa”. As 345 publicações foram dividas, pelo estudo, em quatro frentes. Três delas foram emplacadas pela esquerda.
As publicações em torno da frente “tirar o título de Aparecida” foram 53% de todas as publicações. E os grupos à esquerda foram responsáveis por 80% delas. Os da direita, 19%.
Outro grupo de mensagens classificadas pelo estudo foi referente à “mobilização evangélica e o projeto de lei de 2007”. Elas foram 17% das publicações encontradas, e as páginas da esquerda fizeram 88% delas. As da direita, 10%. As menções ao projeto foram usadas pela esquerda para dar sustentação à narrativa, segundo o estudo.
Nesses dois “clusters” de mensagens, as publicações da imprensa foram 2% do total.
A esquerda também fez publicações em torno da mensagem “Bolsonaro e Aparecida em 2022”, que foram 11% do total. Nesse “cluster”, a ideia era resgatar supostos bolsonaristas em condutas que seriam desrespeitosas no Santuário Nacional de Aparecida. A esquerda fez 78% das publicações desse recorte. A direita, 22%.
A contraofensiva da direita foi reunida em mensagens em torno do tema “Flávio nega e ataca Globo”. Mas esse “cluster” foi apenas 20% do total de publicações mapeadas sobre o assunto da santa católica nos perfis políticos. A direita foi responsável por 96% dele. A esquerda, 3%. A imprensa, 1%.
Segundo a nota metodológica do estudo, a coleta dos conteúdos analisados foi “realizada a partir de perfis no Facebook e Instagram, canais do YouTube, perfis no X e no TikTok, com no total mais de 19 mil perfis”. O levantamento também informa ter usado “dados obtidos pela ferramenta de social listening Talkwalker”.
Flávio pede prisão de servidor do Planalto
caso Nossa Senhora Aparecida
Notícia-crime foi apresentada contra o coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secom; segundo o documento, o funcionário teria pedido, nas redes sociais, que usuários parassem de compartilhar as retratações sobre a desinformação
A campanha do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu nesta sexta-feira (25) a prisão preventiva e a expedição de um mandado de busca e apreensão contra um servidor do Palácio do Planalto, acusado de disseminar desinformação sobre o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A notícia-crime foi apresentada contra George Marques, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
Segundo a campanha, Marques teria compartilhado nas redes sociais uma publicação que orientava os usuários a ignorar a retratação da imprensa sobre a informação falsa. A postagem dizia: “parem de divulgar a retratação. Deixem o assunto rolar. […] Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada, precisa chegar no interior do Nordeste, no interior do Norte”.
A campanha afirma que o servidor tinha conhecimento de que a informação era falsa e de que havia sido desmentida publicamente. Segundo a petição, ele teria compartilhado o conteúdo com seus mais de 200 mil seguidores.
A petição também cita outras publicações republicadas por Marques, nas quais usuários acusam Flávio Bolsonaro de tentar enfraquecer as igrejas católicas no Brasil.
Para a campanha, o conteúdo compartilhado pelo servidor indicaria uma atuação coordenada para manter a informação falsa em circulação até o primeiro turno das eleições. “Não se trata de opinião. Trata-se de um plano”, afirma a notícia-crime.
Para os advogados, a conduta configura os crimes de divulgação de fatos sabidamente inverídicos em período eleitoral, além de incitação ao crime e associação criminosa.
Por isso, a campanha pede a abertura de investigação para apurar a conduta de Marques e de outros envolvidos, além de mandado de busca e apreensão para recolher computador, celular e outros dispositivos eletrônicos do servidor.
Pede ainda a decretação da prisão preventiva do servidor e afirma que, se não atendida, que seja ao menos determinada a suspensão do exercício da função pública e a proibição de uso das redes sociais.
Outro lado
Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que as alegações de Flávio "não procedem". Disse ainda causar estranheza um "pedido injusto e arbitrário" de prisão de um cidadão brasileiro.
A Secom afirma que, ao atribuir ao Governo Federal a responsabilidade por uma republicação realizada por George, Flávio estaria distorcendo os fatos e ignorando que a manifestação ocorreu em caráter estritamente pessoal, por meio de perfil particular, fora do horário de expediente e com a utilização de equipamento próprio.
"O Governo Federal reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e de religião de todos os brasileiros e manifesta repúdio e profunda preocupação com o patrulhamento e a censura impostos à população nesse episódio, a pedido do candidato Flávio Bolsonaro", diz.
Entenda
O episódio começou na noite de 23 de setembro, quando passou a circular nas redes sociais a afirmação de que Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Os conteúdos publicados nas redes sociais utilizaram falas de Flávio Bolsonaro feitas em agosto, em que afirmou que "quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A declaração foi feita em um vídeo em que o presidenciável explicava a ausência no primeiro debate presidencial realizado pela TV Band.
A informação foi desmentida pelo candidato em suas redes sociais nesta quinta-feira (24). Na publicação, o senador garantiu não haver nenhuma possibilidade de existir alguma proposta do tipo. A autoria das postagens foi atribuída pelo senador à "milícia do PT".

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