A procuradora-geral dos Estados Unidos Pam Bondi foi demitida pelo presidente americano Donald Trump nesta quinta-feira (2/4). O vice-procurador-geral Todd Blanche assumirá o cargo interinamente, de acordo com a CBS, emissora parceira da BBC nos EUA.
A saída de Bondi do cargo não é uma surpresa, embora o momento possa parecer um pouco repentino, afirma Bernd Debusmann Jr., repórter da BBC News na Casa Branca.
Ainda ontem, Bondi esteva com Trump em visita à Suprema Corte para ouvir os argumentos no caso que discute o fim do direito automático à cidadania para pessoas nascidas em território americano — conhecida como "cidadania por nascimento".
No entanto, Trump estava cada vez mais frustrado com Bondi devido à forma como ela lidou com os arquivos de Jeffrey Epstein, bilionário que morreu na prisão em 2019, enquanto aguardava novo julgamento, uma década após ter sido condenado como criminoso sexual.
Parlamentares de ambos os lados do espectro político acusaram a agora ex-procuradora-geral de má gestão na divulgação dos arquivos de Epstein, observa Debusmann Jr.
"Além disso, Bondi havia sido encarregada de conduzir investigações criminais contra oponentes políticos, como o democrata da Califórnia Adam Schiff e a procuradora-geral Letitia James — investigações que, em grande parte, não deram em nada", relata o correspondente da BBC.
Trump abordou essas questões publicamente em setembro, em uma postagem nas redes sociais — endereçada a Bondi —, em que dizia que a demora nesses casos estava "destruindo nossa reputação e credibilidade".

Na tarde desta quinta, Trump publicou uma mensagem em sua rede social Truth Social confirmando que Bondi assumirá um "novo emprego no setor privado" e será substituída por Todd Blanche.
"Pam Bondi é uma grande patriota americana e uma amiga leal, que serviu fielmente como minha Procuradora-Geral no último ano", escreveu Trump.
"Pam fez um trabalho excepcional supervisionando uma repressão massiva ao crime em todo o país, com os homicídios caindo para o nível mais baixo desde 1900", acrescentou o republicano.
A saída de Bondi é a terceira demissão de alto escalão do gabinete de Trump neste mandato, após as demissões da ex-secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, no início deste ano, e a do conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz — cujo cargo foi incorporado à pasta de Marco Rubio.
Desde que Trump retornou à Casa Branca em janeiro do ano passado, comentaristas políticos americanos têm observado que a relativa estabilidade em seu gabinete representa uma mudança drástica em relação ao seu primeiro mandato caótico, observa Debusmann Jr.
Somente no primeiro ano daquele mandato, o governo Trump viu a saída da procuradora-geral interina Sally Yates, do conselheiro de Segurança Nacional Mike Flynn, do diretor do FBI James Comey, do chefe de gabinete Reince Priebus, do estrategista-chefe Steve Bannon e do secretário de Saúde Tom Price, entre outros.
As demissões continuaram ao longo do governo, até dezembro de 2020 — pouco mais de um mês antes de ele deixar o cargo.
Como caso Epstein levou à demissão
Não era segredo que o presidente americano estava frustrado com a forma como Bondi lidou com os arquivos de Epstein.
Todo o mandato dela como procuradora-geral foi marcado pelas consequências da sua atuação em relação aos arquivos do governo sobre o criminoso sexual.
Bondi prometeu divulgar os arquivos, mas depois pareceu renegar sua promessa.
Por fim, foi obrigada a torná-los públicos para cumprir uma lei do Congresso americano.
Embora o Departamento de Justiça tenha divulgado milhões de documentos, milhões de outros ainda não foram publicizados.
O órgão, e consequentemente Bondi, enfrentou forte reação negativa de ambos os partidos, com parlamentares acusando o departamento de não ocultar algumas informações que identificavam as vítimas, ao mesmo tempo em que protegia a identidade de pessoas citadas que não foram vítimas.
Vítimas disseram à Noticias sem censura que Bondi não se encontrou pessoalmente com elas, nem respondeu a e-mails sobre os crimes de Epstein.
O congressista republicano Thomas Massie, do Kentucky, um dos principais críticos de Bondi dentro do próprio partido e veemente opositor à forma como ela lidou com os arquivos de Epstein, comentou nesta quinta a demissão.
"Eu apoio a demissão de Pam Bondi por Trump. E você?", escreveu ele em uma enquete na rede social X (antigo Twitter), perguntando aos seus seguidores se concordavam.
"Espero que o próximo Procurador-Geral divulgue todos os arquivos de Epstein de acordo com a lei e dê seguimento com investigações, processos e prisões", acrescentou.
O deputado democrata Robert Garcia, um dos líderes da comissão parlamentar que investiga os arquivos de Epstein, divulgou uma declaração prometendo responsabilizar Bondi por sua atuação no caso.
"Ela não escapará da responsabilização e permanece legalmente obrigada a comparecer perante nossa Comissão sob juramento", afirma.
Em uma declaração contundente, ele acusa Bondi de "liderar um acobertamento dos arquivos de Epstein pela Casa Branca" e de ter "instrumentalizado o Departamento de Justiça para proteger Donald Trump e colocar sobreviventes em risco ao expor suas identidades".
"Ela deve responder por sua má gestão dos arquivos de Epstein e pelo tratamento especial que deu a Ghislaine Maxwell", acrescentou Garcia, citando a ex-socialite britânica condenada a 20 anos de prisão por ter sido cúmplice de Epstein no aliciamento de menores de idade vítimas de crimes sexuais.
Outro congressista democrata, Ro Khanna, que emitiu a intimação obrigando Bondi a depor perante a comissão, acrescentou: "Mesmo tendo sido demitida, ela ainda precisa responder ao Congresso sobre os documentos restantes, por que não houve novas acusações e por que ela participou de um acobertamento."
Quem é Pam Bondi
Nascida em Tampa, na Flórida, Pam Bondi estudou justiça criminal na Universidade da Flórida em 1987, antes de obter seu diploma na Faculdade de Direito da Universidade Stetson três anos depois. Ela foi admitida na Ordem dos Advogados da Flórida em 1991.
Antes de entrar para a política, Bondi, de 60 anos, passou mais de 18 anos como promotora no Ministério Público do Condado de Hillsborough, atuando em casos que variavam de violência doméstica a homicídio qualificado, de acordo com um perfil no site de sua empresa de lobby.

Ela foi eleita a primeira procuradora-geral da Flórida em 2010 — tendo conquistado o apoio da ex-candidata à vice-presidência Sarah Palin — concentrando-se em temas como o vício em opioides, drogas sintéticas e tráfico humano.
Antes de se tornar procuradora-geral, Bondi foi afiliada ao America First Policy Institute, um instituto conservador fundado por ex-membros da equipe de Trump, liderando seu braço jurídico. Ela também atuou na comissão de Trump sobre opioides e abuso de drogas.
Bondi, uma aliada de longa data de Trump, fez parte de sua equipe jurídica durante o primeiro julgamento de impeachment do republicano, quando ele fez alegações falsas de que a eleição de 2020 teria sido roubada devido a fraude eleitoral.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demitiu, nesta quinta-feira (2), a procuradora-geral Pam Bondi, uma aliada fiel, após a gestão controversa de temas como os arquivos do criminoso sexual Jeffrey Epstein e investigações políticas. O vice-procurador-geral Todd Blanche, ex-advogado pessoal de Trump, assumirá o cargo de procurador-geral interino, anunciou o mandatário em sua plataforma, Truth Social.
"Pam Bondi é uma grande patriota americana e uma amiga leal", afirmou o presidente republicano. "Pam fez um trabalho tremendo ao supervisionar uma ofensiva maciça contra o crime em todo o nosso país, com os homicídios caindo ao seu nível mais baixo desde 1900. Gostamos muito de Pam, que agora passará a um novo trabalho, muito necessário e importante, no setor privado", acrescentou.
Trump havia manifestado meses antes sua frustração com o que considerava um compromisso insuficiente de Bondi em levar a julgamento vários inimigos políticos da época em que ele quase foi para a prisão por diversos casos, após seu primeiro mandato presidencial. A procuradora-geral também sofreu críticas, tanto de apoiadores do mandatário quanto da oposição democrata, pela forma como conduziu o caso Epstein.
Este caso é um lastro político para Trump que, apesar de ter se mostrado disposto a publicar todos os arquivos do processo, não conseguiu se desvincular dos erros do Departamento de Justiça na hora de executar a operação. A publicação dos arquivos também trouxe à tona documentos da época em que Trump era amigo de Epstein, o que irritou o presidente especialmente.
Críticas e defesas
Bondi tampouco esteve à altura de suas tentativas de processar com êxito opositores de Trump, como o ex-diretor do FBI James Comey e a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, que fez campanha com a promessa de que acabaria levando-o para a prisão após seu primeiro mandato presidencial. Trump tentou se vingar dessas personalidades assim que voltou ao poder, mas Bondi não conseguiu que os tribunais admitissem as provas que o Departamento de Justiça reuniu durante meses.
Segundo veículos de imprensa americanos, Trump poderia nomear Lee Zeldin, diretor da Agência de Proteção Ambiental, como o próximo procurador-geral. Enquanto isso, o cargo será ocupado por Blanche, que foi um dos advogados pessoais que defenderam Trump nos últimos casos criminais que ele enfrentou após deixar a Casa Branca, em 2021.
Trajetória e polêmicas
A demissão de Bondi ocorre quase um mês depois de Trump afastar Kristi Noem do comando do Departamento de Segurança Interna. Bondi, ex-procuradora-geral da Flórida, defendeu Trump no processo de impeachment durante seu primeiro mandato e ajudou a impulsionar suas afirmações de fraude eleitoral em 2020, quando tentava se manter no poder após sua derrota para Joe Biden, que nunca foram provadas na justiça.
Bondi foi promotora durante 18 anos antes de ser eleita procuradora-geral da Flórida em 2010, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Ela foi reeleita para um segundo mandato em 2014.
Bondi se incorporou à equipe legal de Trump durante seu primeiro julgamento político, no qual foi acusado de ter pressionado o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, para encontrar informações comprometedoras sobre seu adversário nas eleições de 2020, o democrata Joe Biden. Trump foi submetido ao impeachment pela Câmara de Representantes, controlada pelos democratas, mas foi absolvido pelo Senado, de maioria republicana.

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