Dois principais nomes buscam alianças para atingir os 61 assentos necessários, em cenário político altamente fragmentado
A coalizão de direita e extrema direita de Netanyahu obteve 53 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento. Já o bloco oposicionista, comandado pelo centrista Eisenkot, conquistou 48 assentos. Agora, ambos correm contra o tempo para costurar alianças e atingir a marca decisiva de 61 parlamentares.
A composição das cadeiras no Knesset ficou assim:
Likud (de Netanyahu): 27
Yashar (de Eisenkot): 21
B'Yachad: 12
Lista Conjunta (árabe): 11
Os Democratas: 8
Ra'am (árabe): 8
Yisrael Beiteinu: 7
Otzma Yehudit: 7
United Torah Judaism: 7
Shas: 6
Religious Zionist Party-Zehut: 6
O maior interessado em atingir a maioria é o próprio Netanyahu. A perda do controle do parlamento pode trazer graves consequências pessoais ao premier. Sem o governo, ele corre o risco de perder a blindagem e ser preso.
Como a coluna já apontou, no âmbito doméstico, ele é réu em três processos por corrupção e fraude, que somam mais de 90 audiências na Justiça e se encontram em fase de depoimentos — acusações que ele classifica como perseguição política. No âmbito internacional, pesa contra ele um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e contra a humanidade. Como Israel não reconhece a jurisdição do TPI, ele só seria detido se viajasse a um país signatário do Estatuto de Roma (como o Brasil).
A dificuldade em formar maiorias reflete a profunda fragmentação do arco ideológico israelense, que abrange desde a extrema-esquerda até a extrema-direita, incluindo legendas ultraortodoxas e árabes. Essa divisão já levou o país a realizar cinco eleições entre 2019 e 2022, momento em que Netanyahu só conseguiu governar ao se aliar a partidos religiosos.
Tentativas de alcançar a maioria
O oposicionista Yair Lapid, do partido B'Yachad (terceiro mais votado), declarou nesta sexta-feira (30) que o bloco anti-Netanyahu garantiu uma "vitória por pontos" nas urnas e, apesar de não ter alcançado uma margem ampla, já articula a formação de um governo. Segundo o jornal The Times of Israel, o bloco oposicionista soma 67 cadeiras, o que garantiria uma maioria confortável caso três das quatro legendas lideradas por judeus — Yashar, B'Yachad e Yisrael Beiteinu — não tivessem descartado compor aliança com a Lista Conjunta e o Ra'am, partidos de maioria árabe.
Para Eisenkot, três questões controversas devem dominar os debates das alianças: a parceria com legendas árabes, a instituição do serviço militar obrigatório para homens ultraortodoxos (haredi) e a eventual entrada em um governo de unidade com Netanyahu.
Eisenkot poderia atingir 67 cadeiras e se tornar primeiro-ministro caso obtivesse o apoio do Ra'am (8 assentos) e da Lista Conjunta (11 assentos). O arranjo, no entanto, está longe de ser simples: Yashar, B'Yachad e Yisrael Beiteinu prometeram publicamente não governar com legendas árabes.
Por outro lado, o atual premier tampouco tem um caminho simples. De acordo com informações locais, Netanyahu usou a inclusão de partidos árabes na base aliada como arma contra a oposição ao longo da campanha, chegando a classificar essa cooperação como "uma vergonha" em discurso na véspera do pleito.
A retórica, porém, pode não impedi-lo de tentar pontes pragmáticas. O líder do Ra'am, Mansour Abbas, afirmou que já mantém conversas com representantes de ambos os blocos. Seus parceiros de extrema-direita, Otzma Yehudit e Religious Zionist Party-Zehut, deixaram claro durante a campanha que uma cooperação estava fora de questão. A Lista Conjunta é ainda menos aceitável. Mesmo que Netanyahu fizesse o impensável e cooperasse com o Ra'am, seria improvável que conseguisse a maioria.
Bloco de Netanyahu perde maioria no Parlamento em Israel
O resultado das eleições em Israel confirmou que o bloco do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu (Likud, direita), perdeu a maioria parlamentar no Knesset. A apuração, encerrada na madrugada desta 6ª feira (30.out.2026), mostrou que o bloco conquistou 53. O bloco oposicionista obteve 48 assentos, enquanto os partidos de líderes árabes ficaram com os outros 19, um resultado histórico.
O Knesset tem 120 cadeiras, e qualquer coalizão precisa de pelo menos 61 assentos para governar. Os partidos agora precisam negociar e buscar alianças para alcançar o número mínimo de cadeiras. Enquanto as conversas avançam, Netanyahu segue como primeiro-ministro interino.
NEGOCIAÇÕES POR ALIANÇA
A principal questão é se os partidos da oposição, que fizeram campanha para destituir Netanyahu, aceitarão se aliar às siglas de líderes árabes ou se abandonarão suas promessas de campanha para formar um governo de unidade com o atual premiê.
O parlamentar centrista Yair Lapid pediu “paciência” em publicação no X. “Agora vem a parte realmente difícil”, disse. “Se você quer saber se algo está acontecendo por trás do silêncio que você está ouvindo agora, a resposta é sim”, acrescentou.
Os resultados ainda precisam ser certificados e apresentados ao presidente de Israel, Isaac Herzog (Partido Trabalhista, centro-esquerda), na 4ª feira (4.nov.2026).
Herzog deverá, então, incumbir um parlamentar de formar o governo. A pessoa escolhida pode ser o líder do partido com mais votos, Netanyahu, ou alguém que os líderes dos diferentes partidos considerarem mais adequado.
Nessa semana, o presidente afirmou que fará tudo ao seu alcance para evitar uma nova eleição. Se as tentativas de formar um governo fracassarem, Israel poderá realizar novo pleito no início de 2027.
Segundo a agência AP (Associated Press), centenas de israelenses realizaram manifestações pedindo que o líder do bloco oposicionista, o ex-chefe militar Gadi Eisenkot, e outros se unam aos partidos árabes.
O novo Knesset deve tomar posse em 10 de novembro.
ACUSAÇÕES SEM PROVAS
Horas antes da divulgação dos resultados, Netanyahu e seu partido, o Likud, afirmaram, sem apresentar provas, que siglas de líderes árabes teriam “roubado” a eleição, possivelmente com ajuda do Qatar. O país negou as alegações, classificando-as como “ridículas e perigosas”.
A oposição afirmou que Netanyahu tenta difamar a população árabe, que representa 20% dos habitantes de Israel. A participação dos eleitores árabes nas urnas foi recorde e representou uma reação aos aliados de Netanyahu da direita radical.
O presidente do comitê eleitoral de Israel, ministro da Suprema Corte Noam Sohlberg, afirmou que “suspeitas sérias” de interferência estrangeira foram levadas a seu conhecimento.
Em carta à agência de segurança Shin Bet, Sohlberg disse não poder verificar as alegações, mas pediu uma investigação. O comitê quer receber os resultados em uma semana.
O comitê também alertou que “alegações de violações sistemáticas da integridade eleitoral são infundadas”. O Shin Bet, por sua vez, afirmou que a investigação não pretendia “lançar suspeitas” sobre uma parcela da população que “exerceu seu direito de voto de maneira democrática e legal”.
Se Netanyahu deixar o cargo, poderá ter de responder às acusações de corrupção que se arrastam há anos. Também poderá ser aberta uma investigação sobre as falhas de segurança que precederam o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.

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