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Estupro coletivo em Copacabana: um dos suspeitos é filho de subsecretário

 

Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, é filho do subsecretário de Governança do governo fluminense, José Carlos Costa Simonin; secretária estadual disse que tomou conhecimento nessa segunda sobre as denúncias contra o filho de Simonin



Um dos cinco jovens investigados por suspeita de participação no estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, ocorrido no fim de janeiro em Copacabana, é filho de um integrante do governo do Rio de Janeiro.

Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, é filho do subsecretário de Governança José Carlos Costa Simonin. O jovem é considerado foragido e está sendo procurado pela polícia.

O subsecretário é advogado e integra o Conselho Gestor do Fundo de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais, participa do Conselho Gestor do Fundo Estadual de Investimentos e Ações de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, ocupa a vice-presidência do Conselho Estadual de Assistência Social e participou da elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento Econômico e Social.

O órgão ao qual Simonin está vinculado integra a estrutura da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, que é chefiada pela secretária Rosangela Gomes.

Noticia sem censura tenta contato com a defesa de Vitor Hugo e com o subsecretário, mas ainda não houve retorno.

Em nota, o governo do RJ informou que  "repudia veementemente o ato de violência cometido contra uma adolescente em Copacabana, e que a Secretaria de Estado da Mulher prestará apoio psicológico à vítima e à família".


Nesta segunda-feira (2), a secretária Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos Rosangela Gomes publicou nota nas redes sociais informando que tomou conhecimento das denúncias na noite anterior.

No comunicado, ela declarou que sua trajetória e gestão são pautadas pela defesa dos direitos das mulheres e pelo combate à violência, e afirmou que a Secretaria da Mulher está prestando apoio jurídico e psicológico à adolescente e à família por meio do governo estadual.

O que as investigações revelaram

Cinco jovens, quatro maiores de idade e um adolescente, foram indiciados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro por estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, ocorrido em 31 de janeiro, em Copacabana, na zona Sul do Rio de Janeiro. Dois dos envolvidos são alunos do Colégio Pedro II, e um deles, menor de idade, seria ex-namorado da vítima.

Segundo as investigações, o crime teria sido premeditado. A jovem foi atraída ao apartamento do ex-namorado, após mensagens e ligações insistentes. No local, iniciou relação consensual com o adolescente, mas outros quatro jovens invadiram o quarto. De acordo com o inquérito, houve recusa da vítima, seguida de agressões físicas e violência sexual praticada pelo grupo.

Câmeras de segurança registraram a chegada e saída dos envolvidos. Após deixar o prédio, a vítima acionou familiares e registrou ocorrência. Um exame pericial confirmou lesões, hemorragia e presença de sêmen, compatíveis com o relato.

A Justiça decretou a prisão preventiva dos quatro maiores: Bruno Felipe dos Santos Allegretti (18), Vitor Hugo Oliveira Simonin (18), Mattheus Verissimo Zoel Martins (19) e João Gabriel Xavier Bertho (19), considerados foragidos. O adolescente responderá conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.

O Serrano Football Club afastou João Gabriel, atleta do clube.

O Colégio Pedro II informou ter adotado medidas administrativas, incluindo o desligamento de dois alunos envolvidos, o menor de idade e o Vitor Hugo Oliveira Simonin.

A UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) também determinou a suspensão cautelar do Bruno Felipe dos Santos Allegretti, de 18 anos, estudante do curso de Ciências Ambientais, e vedou o direito do discente de frequentar salas de aula, laboratórios, bibliotecas e o restaurante universitário pelo prazo de 120 dias.

A defesa de João Gabriel nega as acusações e afirma que a jovem teria consentido com a presença dos demais no quarto.


A perpetuação histórica da violência sexual como ferramenta de poder





O cenário é um apartamento na Rua Viveiros de Castro, coração de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A data, 31 de janeiro de 2026. O que deveria ser um encontro entre dois adolescentes se transforma em uma sessão de tortura que durou cerca de uma hora e culminou no estupro coletivo de uma jovem de 17 anos. O caso, por si só, já seria mais um número trágico nas estatísticas da violência contra a mulher no Brasil. Contudo, os detalhes que emergem da investigação policial e das reações sociais pintam um quadro muito mais sombrio e complexo, que transcende o crime em si e expõe as feridas abertas de uma sociedade doente.

Os acusados não são figuras marginais, espectros anônimos da criminalidade urbana. Pelo contrário. São jovens da elite cariocaum estudante de universidade federal (UniRio), dois alunos de um dos mais tradicionais colégios do país (Pedro II) e um atleta de futebol com passagem por clubes conhecidos. Homens em formação, com acesso à educação e a privilégios que a maioria da população brasileira jamais terá. Este crime nos força a encarar a “banalidade do mal”, conceito cunhado pela filósofa Hannah Arendt ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto. Arendt argumentou que o mal não é necessariamente praticado por monstros sádicos, mas por pessoas comuns, burocratas que cumprem ordens sem refletir sobre a moralidade de seus atos. No caso de Copacabana, vemos jovens que, em vez de ordens, seguem um roteiro de masculinidade criminosa, uma cartilha de poder e dominação que transforma o corpo feminino em território a ser conquistado e violado.

Divulgação/Polícia Civilimagem colorida procurados estupro coletivo
Adolescentes são procurados por estupro coletivo no Rio

A “comemoração” de um dos agressores, o menor de idade que articulou a emboscada, captada pelas câmeras de segurança, é o símbolo máximo dessa banalidade. O sorriso, os gestos de triunfo após a vítima deixar o apartamento, não são apenas um ato de deboche; são a expressão de uma cultura que dessensibilizou a violência, que a transformou em espetáculo, em troféu. É a celebração da própria desumanidade, a prova de que, para eles, a vítima não era uma pessoa, mas um objeto. Uma pergunta do menor à vítima, preocupado se a mãe dela a veria nua por causa das marcas e do sangramento, revela não um pingo de remorso, mas o receio da consequência, a preocupação com a própria imagem, não com o sofrimento infligido.

Historicamente, a violência sexual sempre foi uma ferramenta de poder e controle. Da Antiguidade, com o “direito” de posse sobre as mulheres dos inimigos derrotados, à Inquisição, que usava a violência sexual como forma de punição e humilhação, o estupro nunca foi apenas sobre sexo. É sobre poder. E o que vemos em Copacabana é a perpetuação dessa lógica em pleno século XXI, em um apartamento com vista para o mar. Os agressores, ao atuarem em bando, não apenas somam forças físicas, mas criam uma entidade coletiva que dilui a responsabilidade individual e potencializa a crueldade. É o efeito manada, a mesma dinâmica que explica linchamentos e massacres. O grupo se torna um monstro de muitas cabeças, onde cada um se sente menos culpado, pois a culpa é de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém.


As redes sociais, como um espelho distorcido da nossa sociedade, revelam o que a narrativa oficial muitas vezes esconde. Enquanto a maioria das reações é de justa indignação, surgem vozes que tentam relativizar o crime. A defesa de um dos acusados, por exemplo, alega que a vítima “sabia da presença prévia dos outros rapazes” e que teria havido “consentimento inicial”. É a velha e covarde tática de culpar a vítima, de transferir para ela a responsabilidade pela violência que sofreu. Essa narrativa, que encontra eco em comentários e posts, ignora o fato de que consentimento não é um cheque em branco. Ele pode ser retirado a qualquer momento. E, mais importante, não existe consentimento sob coação, violência e cárcere privado. A tentativa de transformar um estupro coletivo em uma “festa que deu errado” é um insulto não apenas à vítima, mas à inteligência e à decência humana.

Outro ponto que as redes e a apuração jornalística trouxeram à tona é que o comportamento predatório dos agressores não era um segredo. Colegas de escola relataram que eles “não respeitavam quando uma menina dizia não”. O silêncio que permitiu que esse padrão de comportamento continuasse impune é cúmplice. É o silêncio de uma sociedade que ensina os meninos a serem “pegadores” e as meninas a “se darem ao respeito”. É o silêncio de instituições que, muitas vezes, preferem abafar casos de assédio para proteger sua reputação. O Colégio Pedro II e a UniRio, ao afastarem os alunos, tomaram a atitude correta, mas a pergunta que fica é: quantas outras vítimas silenciosas podem ter cruzado o caminho desses jovens?

A operação policial, batizada de “Não é Não”, é um lembrete óbvio, mas necessário, em uma sociedade que ainda precisa aprender o significado da palavra. O caso de Copacabana não é um ponto fora da curva. É o sintoma de uma doença social profunda, que mistura privilégio de classe, misoginia estrutural e uma crise de valores que nos impede de enxergar a humanidade no outro. A “comemoração” do estupro é o nosso reflexo no espelho, quanto sociedade. E a imagem é insuportável.






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